Gaza e a morte da moralidade

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Gaza-Al Mayadeen. Di Tala Alayli. O genocídio em Gaza despojou a ordem mundial de sua última ilusão: desmascarar uma civilização que não prova nada e justifica tudo.

Sempre será Gaza na garganta do mundo.

Nenhum suspiro de alívio será capaz de dar sentido ao que a terra mais atormentada e suas crianças testemunharam – em uma era que será lembrada por sua violência bárbara e sua assustadora indiferença.

Gaza não é uma tragédia política; é o colapso moral da própria ordem mundial.
Os hospitais bombardeados, as famílias famintas, a carne nas paredes, os poços de sangue nos parquinhos – tudo isso arrancou a máscara da ilusão de que os autoproclamados defensores dos direitos humanos ainda possuem consciência.

O mundo não apenas falhou com Gaza; falhou com a própria humanidade, e anunciou a era dos monstros.

A anatomia da apatia moral.

Em 1963, James Baldwin escreveu que “as pessoas que fecham os olhos para a realidade simplesmente convidam a própria destruição.”

Seu diagnóstico sobre o racismo americano – o que ele chamou de apatia moral e morte do coração – descreve, com precisão devastadora, a paralisia do nosso próprio tempo.
Não se trata apenas de ignorância, mas da recusa deliberada em ver e sentir. É o conforto do distanciamento e a segurança de fingir que o sofrimento alheio não exige nossa atenção.

Na América de Baldwin, essa apatia justificava a opressão do povo negro. No mundo de hoje, justifica primeiro o aniquilamento dos palestinos, depois a devastação de toda uma região.
O mecanismo é o mesmo: tira-se de um povo a sua humanidade, e depois lamenta-se sua morte como se fosse inevitável.
A apatia moral permite que os poderosos cometam atrocidades sem culpa
– e que os espectadores assistam sem desconforto.

Baldwin compreendia que a apatia é o verdadeiro rosto da opressão.
Não é apenas a crueldade dos que agem, mas o silêncio dos que permitem.
Nesse sentido, Gaza não é apenas um palco de violência, mas um espelho que reflete o colapso da imaginação moral do nosso tempo.

O esvaziamento do humano.

Na verdade, os próprios conceitos de empatia e moralidade foram fragmentados à medida que o mundo se transformou em uma terrível distopia, que embaralhou os limites e enfraqueceu sua integridade.
É justo, portanto, recordar suas definições, para compreender com firmeza o que está em jogo.

Empatia e moralidade são frequentemente mencionadas juntas, mas não são a mesma coisa.
A moralidade é uma construção – aprendida, ensinada e imposta.
Ela pode ser moldada, assim como pode ser corrompida.
A empatia, por outro lado, é instintiva – o impulso humano natural de sentir a dor do outro e de reagir como se fosse a própria.

Mas até a empatia pode ser erodida.

Vivemos em um mundo que sobrecarrega os sentidos e entorpece a alma.
A exposição constante ao sofrimento, através do fluxo incessante de informações, transformou a compaixão em exaustão.
As guerras se desenrolam em tempo real – e ainda assim mal despertam mais que um clique ou um rolar de tela.

Aqui ecoa o alerta de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal”: a obediência cotidiana que permite que atrocidades se tornem simples rotina.
A banalidade do mal de hoje é digital: rola a tela, racionaliza e segue em frente.
Às vezes, simplesmente pula o conteúdo.
Quando o mundo inteiro pode assistir à fome de crianças em Gaza e chamá-la de “autodefesa” ou “uma situação complexa” — especialmente entre aqueles que compreendem os horrores, mas estão presos ao “ambos os lados” -, então a moralidade perdeu o sentido e a empatia perdeu o pulso.

Moralidade sem empatia é vazia.
Torna-se uma linguagem de justificação, não de justiça.
É o que permite que aviões de guerra lancem toneladas de bombas sobre hospitais e tendas de abrigo em nome da “segurança”, ou que a fome corroa os ossos de civis em nome da “necessidade”.

Quando o poder monopoliza as definições de certo e errado, de preto e branco, a moralidade deixa de ser ética e torna-se ideológica.

O colapso da consciência global

Se moralidade e empatia são os pilares gêmeos da humanidade compartilhada, Gaza mostrou que ambos desabaram.
Todas as instituições que antes reivindicavam autoridade moral – das Nações Unidas aos autoproclamados guardiões da democracia – falharam com o povo da Palestina.
Resoluções são aprovadas e ignoradas; leis são citadas, mas nunca aplicadas.

O silêncio dos governos ocidentais e sua ativa cumplicidade transformaram o genocídio de Gaza no ato de acusação mais esmagador da nossa época. As mesmas potências que pregam ao mundo democracia e direitos humanos estão armando a ocupação, vetando os cessar-fogos e criminalizando a dissidência.

Isto não é um desvio do sistema; é o seu desenho.

A “ordem internacional baseada em regras” não está desmoronando; está se revelando. Construída sobre séculos de hierarquia colonial, nunca foi concebida para proteger os oprimidos, mas para preservar os privilégios do império. A mesma lógica que antes justificava o colonialismo na África e na Ásia agora sustenta a ocupação da Palestina.

A mania da moralidade.

Mesmo a máquina humanitária construída em torno dessa ordem revelou sua vacuidade moral. Muitos governos e ONGs assistiram ao horror de Gaza e preferiram o simbolismo à substância. Apressaram-se em evacuar asnos, cães e gatos [vidas que rendem manchetes], deixando os donos humanos dos animais enfrentarem as bombas.

Outros transportaram crianças por via aérea para a “segurança”, mas apenas separando-as de mães, pais e irmãos.

Este é um perfeito exemplo de burocracia mascarada de virtude, um feio fetichismo das aparências, uma compaixão encenada para a câmera, completamente dissociada das relações humanas.

Na realidade, grande parte do sistema humanitário global agora funciona como espetáculo. Alimenta-se das crises, traduzindo a agonia em financiamento e a dor em campanhas de relações públicas. Governos e agências humanitárias medem a empatia com base na visibilidade, e não na justiça.

Em Gaza, os palestinos se equilibravam entre desviar-se do fogo israelense e encenar um espetáculo para obter a compaixão do mundo. E o mundo ficou olhando: um para o dinheiro, dois para o show.

Esse teatro moral é o que Baldwin previu quando advertiu que uma sociedade construída sobre a negação torna-se espiritualmente doente. O mundo aprendeu a encenar empatia sem senti-la, a moralizar o sofrimento sem detê-lo.

Gaza põe em evidência a fase final dessa decadência: o momento em que a moralidade se torna um fetiche em vez de uma força positiva.

A máquina do domínio.

Há algo de muito sinistro e puramente inquietante em ver a humilhação e não piscar um olho. A degradação já não convoca mais à revolta?

A ocupação que governa os palestinos não é sustentada apenas pelo poder militar; ela prospera na humilhação. Sua arquitetura, dos postos de controle aos bloqueios, aos ataques e bombardeios, é projetada para esmagar o espírito, para tornar a própria sobrevivência um ato de desafio.

O que vemos em Gaza é a perfeição do domínio: um sistema que reduz a vida ao controle, que encontra a ordem na submissão e que se alimenta de ciclos de destruição para manter seu próprio senso de propósito. Essa máquina não é uma aberração; é a lógica do império em sua forma mais pura.

Israel” veste os detentos palestinos com moletons com inscrições intrinsecamente violentas impressas sobre eles. Seus soldados agridem mulheres diante dos olhos de seus maridos e pais. Soltam cães de ataque contra crianças.Israel” é uma entidade nauseantemente distorcida que tem uma necessidade patológica de desumanização para preservar seu poder.

É um parasita e deixa germes de putrefação em escala planetária em Gaza. Sua violência, a cumplicidade e o silêncio que a sustentam revelam o quanto a podridão moral contaminou a política global. A mais poderosa preocupação do mundo é a defesa da impunidade, da qual “Israel” teve carta branca, em vez da justiça.

A falência moral do império.

Os impérios de hoje já não se definem mais como impérios, e, no entanto, seu comportamento permanece inalterado. Suas narrativas morais de “liberdade”, “civilização” e “segurança” são revisitações de antigas mentiras. O genocídio de Gaza rasgou essa linguagem, desmascarando um sistema que privilegia a ordem sobre a justiça, o silêncio sobre a verdade e o lucro sobre a vida.

Definir essa decadência como moral implicaria que um dia a moralidade existiu dentro dela. Na realidade, o sistema sempre foi moralmente falido. Sobrevive graças a uma empatia seletiva, chorando as vidas dos europeus e descartando as dos árabes como colaterais. Fala de direitos humanos enquanto lucra com o sofrimento humano.

O fato é que, uma vez que você vê, não pode mais deixar de ver. Gaza tornou impossível não ver. O mito da superioridade moral ocidental desabou. O genocídio não apenas destruiu vidas palestinas; despedaçou a arquitetura moral doente do mundo moderno.

Reconquistar o humano.

Enfrentar Gaza significa enfrentar a podridão espiritual dentro da nossa civilização. Exige o abandono da neutralidade, porque a neutralidade diante da crueldade é cumplicidade.

Voltar a sentir emoções, permitir que a empatia penetre a apatia, é o primeiro ato de resistência. Em uma época em que os governos criminalizam a compaixão e a mídia adoça os assassinatos em massa, a empatia em si se torna revolucionária. Estar ao lado de Gaza não é um gesto de caridade; é uma necessidade moral.

Se o mundo continuar a se alienar do sofrimento de Gaza, não será apenas o fim da Palestina, será o fim da pretensão de moralidade da humanidade. Porque um sistema que pode justificar o genocídio não pode sustentar a vida, e uma consciência que pode tolerá-lo não pode sobreviver.

A pergunta que enfrentamos não é se esta ordem mundial pode ser reformada. Não pode. Nunca foi moral; era simplesmente conveniente. A pergunta é se nós, como pessoas, podemos redescobrir nossa capacidade de sentir antes que seja tarde demais.

Neste momento, Gaza é o santuário da última gota de humanidade. Entre as ruínas, vemos ambos: o início do fim de um império espiritualmente vazio e a prova final da nossa integridade moral.

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