
Al Mayadeen – Quando o cessar-fogo em Gaza foi anunciado, Amin al Zein sentiu, pela primeira vez em anos, que a “paz” poderia estar ao alcance. Na noite de terça-feira (28 de outubro), o homem de 42 anos concedeu uma entrevista a uma ONG local, pedindo que as famílias deslocadas à força retornassem para suas casas no norte da Faixa de Gaza, agora que a guerra israelense havia terminado.
Meia hora depois, Zein foi morto em um brutal ataque aéreo israelense contra a escola de Beit Lahia, onde havia buscado abrigo, segundo informou o The Guardian.
Ele havia prometido à esposa, Maryam, que voltariam para Beit Lahia e montariam uma tenda sobre os escombros da casa destruída, apenas para poderem estar novamente juntos em sua terra.
“Quando a trégua foi declarada, Abu Luay se sentiu aliviado e cheio de esperança”, contou Maryam, usando o apelido familiar dele. “Ele acreditava que o derramamento de sangue finalmente havia acabado. Infelizmente, essa sensação não durou. Israel violou novamente o cessar-fogo.”
Zein estava entre os 115 palestinos mortos e mais de 350 feridos durante as 24 horas de bombardeios israelenses da semana passada, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.
Foi o dia mais mortal desde o início do cessar-fogo, em 10 de outubro, e um dos mais sangrentos desde o começo do genocídio israelense há dois anos.
Israel continua a violar o cessar-fogo
Os novos ataques intensificaram o medo e o ceticismo, a ponto de o povo de Gaza agora ver o cessar-fogo como uma ilusão — uma trégua pontuada por assassinatos imprevisíveis cometidos por Israel.
Muitos temem que essa “paz” se assemelhe à do Líbano, onde os bombardeios israelenses continuam matando civis quase diariamente, apesar do acordo firmado há um ano.
Hussain Abu Munir, enfermeiro de 40 anos, vive essa incerteza todos os dias ao se deslocar entre o sul e o norte de Gaza. Deslocado à força com a família, ele continua viajando para o norte com outros profissionais de saúde para trabalhar — uma jornada que descreve como “uma aposta diária com a morte”.
“Viajar em um ônibus cheio de trabalhadores da saúde parece perigoso. Muitos de nós foram mortos durante a guerra”, disse Abu Munir, referindo-se aos 1.722 profissionais de saúde que perderam a vida, segundo a organização Medical Aid for Palestine.
A travessia do posto de controle de Netzarim, contou ao The Guardian, é a parte mais angustiante da viagem:
“Todos os dias vamos e voltamos — é como embarcar em uma jornada perigosa e incerta. Meu maior medo não é por mim, mas por meus filhos no sul — que o posto feche antes que eu consiga voltar para casa.”
Na quarta-feira, quando o ônibus se aproximava de Netzarim, balas israelenses começaram a cair nas proximidades.
“As pessoas gritavam para o motorista parar”, lembrou. “Conseguimos passar ilesos, mas ninguém pode garantir que estaremos seguros amanhã.”
Dúvidas sobre as garantias internacionais
Apesar do número crescente de vítimas, os mediadores internacionais insistem que o cessar-fogo permanece de pé.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que nada “coloca em risco a trégua”, enquanto o vice-presidente J.D. Vance classificou os bombardeios como simples “escaramuças”, embora sejam ataques unilaterais.
Horas depois, Israel lançou outro ataque, matando mais palestinos — entre eles, mulheres e crianças.
Para o povo de Gaza, essas garantias soam vazias.
“Já vivemos isso antes”, disse Ikram Nasser, professora de inglês de 36 anos.
“Eles dizem que há um cessar-fogo, mas nós ainda ouvimos as explosões.”
O futuro das crianças em suspenso
Nasser esperava que a trégua permitisse a reabertura das escolas e restaurasse alguma normalidade para as crianças de Gaza.
Após dois anos de genocídio, ela viu seus alunos se tornarem introvertidos, ansiosos e frequentemente agressivos, sintomas — segundo ela — de traumas e privações profundas.
“Essas crianças não brincam mais. Elas correm atrás das distribuições de comida e dos caminhões de água”, destacou. “A infância delas foi substituída pela sobrevivência.”
Nos primeiros dias do cessar-fogo, salas de aula improvisadas em tendas foram reabertas, e as crianças voltaram a se alinhar — algumas chegando já às sete da manhã, ávidas por aprender.
Mas os bombardeios desta semana destruíram novamente essa frágil esperança.
“Mesmo agora, não nos sentimos seguros”, disse Nasser.
“Cada dia traz novas violações. Como mães e como professoras, já não confiamos mais na estabilidade do cessar-fogo.”
