O que está por trás do anúncio de Tel Aviv sobre Rafah como “zona militar fechada”?

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Tel Aviv – IslamTimes. Na quinta-feira, Katz anunciou ter instruído o exército a transformar a área de fronteira com o Egito em uma zona militar fechada, com o objetivo de bloquear o fornecimento de armas aos grupos de resistência palestinos que lutam contra a ocupação israelense.

“O contrabando de armas por meio de drones tornou-se uma característica do conflito em Gaza, contribuindo para armar nossos inimigos. Devemos tomar todas as medidas necessárias para impedi-lo”, acrescentou Katz.

Israel e Egito compartilham uma fronteira de cerca de 200 quilômetros. No domingo, o exército israelense informou ter identificado um drone que cruzou de oeste para o território israelense em uma tentativa de contrabando de armas. As forças israelenses afirmaram ter interceptado e bloqueado o drone, que transportava oito armas de fogo.

Em outro caso, na terça-feira, o exército de ocupação anunciou ter bloqueado outra tentativa de contrabando, interceptando um drone com dez pistolas que havia cruzado a “fronteira oriental” em direção a Israel — fronteira que o país compartilha com a Jordânia.

No entanto, a nova decisão do governo não é apenas uma reação a alguns drones armados.
De acordo com analistas, a medida persegue objetivos críticos de segurança, políticos, regionais e diplomáticos.

1. Justificar o bloqueio contínuo e a pressão sobre Gaza

Primeiramente, o regime israelense busca justificar sua agressão incessante contra Gaza e, assim, continuar suas operações fracassadas sob novos pretextos, impedindo que os habitantes de Gaza encontrem qualquer estabilidade.

Tel Aviv tenta desarmar o Hamas e transformar Gaza em uma zona desmilitarizada, objetivo que não conseguiu alcançar militarmente, apesar da destruição generalizada de infraestrutura.
Agora, durante o processo político de implementação do cessar-fogo, Israel tenta atingir essa meta com a cooperação dos EUA e de governos árabes reacionários.

Um ponto central da estratégia israelense é usar o bloqueio como instrumento de pressão, obtendo concessões da resistência palestina.
O pretexto do contrabando de armas serve para justificar o bloqueio da entrada de ajuda humanitária em larga escala.

O gabinete de imprensa do governo de Gaza declarou na quinta-feira que, desde o início da trégua, apenas 4.453 dos 15.600 caminhões previstos (28%) entraram em Gaza.
O comunicado afirmou:

“A média diária é de apenas 171 caminhões, comparada aos 600 que deveriam entrar segundo o protocolo humanitário.”

Além disso, Tel Aviv impede a entrada de bens essenciais, como ovos, carne, frango, peixe, verduras e laticínios, permitindo apenas produtos de baixo valor nutricional, como alimentos industrializados, chocolate, batatas fritas e refrigerantes.

Israel tenta transmitir a mensagem de que a trégua serve apenas para o rearmamento do Hamas, justificando assim a manutenção de sua presença militar e o não cumprimento do cessar-fogo.

2. Pressionar Egito e Jordânia destacando a insegurança nas fronteiras

Ao enfatizar a suposta incapacidade ou negligência de Egito e Jordânia em impedir o contrabando de armas, Tel Aviv busca criar uma nova narrativa segundo a qual não está mais obrigada a respeitar totalmente os tratados bilaterais sobre o controle da fronteira de Rafah e do Corredor da Filadélfia.

Isso permite a Israel afirmar que, quando os parceiros árabes não cumprem seus deveres de segurança, o regime tem o direito de agir unilateralmente.

O governo israelense há muito deseja maior controle sobre o Corredor da Filadélfia, para fechar túneis de contrabando e pressionar o Hamas no sul de Gaza.
Com essa justificativa, Tel Aviv tenta legitimar uma presença militar ampliada ao longo do deserto do Sinai e da fronteira com a Jordânia.

A campanha de propaganda em torno dos incidentes com drones é projetada para convencer a opinião pública de que o Egito perdeu o controle do Sinai, e que Israel “não tem escolha” senão assumir diretamente a supervisão das fronteiras.

Na prática, isso significa o transferimento gradual do controle das passagens fronteiriças para as forças israelenses, eliminando a supervisão conjunta ou multilateral e substituindo-a por uma gestão unilateral — uma violação clara do espírito dos acordos anteriores.

3. Criar pretextos legais e militares para continuar matando civis

O anúncio de “modificação das regras de engajamento” equivale, na prática, à criação de um terreno legal e militar para continuar as mortes de civis.
Transformar a fronteira egípcia em uma zona militar fechada permitirá a Israel abrir fogo contra qualquer movimento suspeito, aumentar o número de tropas e usar drones e aviões de combate em áreas próximas de Rafah e do deserto do Sinai — zonas que deveriam ser desmilitarizadas segundo o acordo de cessar-fogo de 1967 com o Egito.

Essas mudanças expandem a liberdade de ação do exército em um dos pontos mais sensíveis da região e abrem caminho para operações mais agressivas e incontroladas.

4. Enviar uma mensagem política interna e fortalecer a extrema-direita

A retórica também tem um propósito interno.
Ao manter a pressão militar sobre Gaza, o governo busca acalmar os membros da extrema-direita, como Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, contrário ao cessar-fogo.

Ben-Gvir elogiou a decisão nas redes sociais, dizendo que Katz finalmente “percebeu que o contrabando serve a objetivos terroristas”.

Para o governo Netanyahu, essa medida envia diversas mensagens:

  • Reafirma autoridade militar perante uma população israelense que perdeu a confiança no exército após grandes baixas.
  • Fortalece a imagem “dura” do governo, importante diante de possíveis eleições antecipadas.
  • Redefine a guerra de Gaza como parte de um conflito regional mais amplo, alegando que atores externos armam o Hamas — uma forma de minimizar as derrotas sofridas por Israel nos últimos dois anos.

Em resumo, as medidas tomadas por Israel em Rafah visam prolongar sua presença ocupacional, impedir a reconstrução de Gaza e neutralizar esforços para aliviar a crise humanitária.
Dessa forma, o Acordo de Sharm El-Sheikh e a Iniciativa de Paz de Trump tornam-se, na prática, obsoletos e irrelevantes.

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