Israel e o Colonialismo de Assentamento, p.1

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De Angela Lano.

Um dos mitos mais poderosos do século XX foi a ideia de que a eliminação das administrações coloniais teria levado à descolonização, dando origem à ilusão de um mundo pós-colonial. Um mito, na realidade, considerando que ainda estamos plenamente e globalmente imersos em um planeta de colonizadores e colonizados. Como escreve Grosfoguel, nos últimos 70 anos, as múltiplas e heterogêneas estruturas globais, criadas ao longo de 450 anos, não desapareceram junto com a descolonização jurídico-política do Sul Global e, de fato, continuamos a viver dominados pela mesma matriz de poder colonial, talvez ainda mais forte, mais enraizada e generalizada, graças à globalização e ao papel poderoso e manipulador dos meios de comunicação de massa.

Se o colonialismo é a prática da conquista, da submissão e da exploração, a colonialidade revelou-se mais duradoura e profunda como sistema de poder, sobretudo porque se fundamenta na justificação do papel dos colonizadores como organizadores racionais do mundo e portadores de uma ordem superior.

Em “Descolonização e Privilégio”, a geógrafa Rachele Borghi destaca:
«Depois do fim do colonialismo histórico, vivemos com a ilusão de ter superado o colonialismo no momento em que todos os países se tornaram politicamente independentes, quando começou o processo geralmente definido como descolonização. No entanto, este é um processo que tem mais a ver com a formação dos Estados-nação de um ponto de vista formal e com a invenção da nação, do que com a vida material das pessoas. Além disso, não tem nada a ver com a descolonização do pensamento, com a eliminação das hierarquias entre indivíduos e a derrota das relações de dominação».

Como destaca Domenico Losurdo no livro “Colonialismo e luta anticolonial”, «Revoluções anticoloniais caracterizam toda a história do século XX. E hoje esse capítulo da história ainda não está concluído. Pensemos nas guerras que ainda ensanguentam e destroem países como a Líbia, o Iraque, que ameaçam o Irã, nas guerras que destruíram a Iugoslávia». As localizações geopolíticas-alvo do Ocidente continuam a ser, entre outras, o Norte da África e o Oriente Médio e Próximo – Tunísia, Líbia, Egito, Líbano, Síria, Palestina, Iraque, Iêmen, Afeganistão, etc.

Persistência da visão orientalista.

Estamos diante de formas neocoloniais sob vários pretextos – luta contra as ditaduras, pelos direitos humanos, pela democratização, etc. –, ao supremacismo branco e à visão orientalista sobre o mundo islâmico – por exemplo, em relação às questões religiosas e femininas, sobre as quais os meios de comunicação hegemônicos fazem amplo uso de uma comunicação racista, enganosa, degradante e discriminatória, orientada para a construção do consenso para a exportação da “democracia”: periodicamente, nos países muçulmanos alvo do neocolonialismo ocidental, existe a “mulher a ser salva”, as “mulheres subjugadas”, as “mulheres a serem libertadas” do patriarcado. A Anglo-Euro-América fez guerra ao Afeganistão, apresentando-a sob o pretexto de “libertar as mulheres do burca”, e agora gostaria de tentar novamente com o Irã. Os slogans são sempre os mesmos, porque ao rebanho humano de leitores-telespectadores que pouco pensam não são necessários novos, já que eles se esquecem todas as vezes dos antigos… Basta tirar do nada algum caso de crônica, real ou inventado, de mulher-emblema da submissão ao mau muçulmano masculino a ser aniquilado a golpes de bombas, que a onda dos “eu apoio…” se torna viral nas redes sociais e criam-se as pré-condições para o consenso à nova guerra colonial apresentada como democrática e civilizadora.

As representações utilizadas pelos meios de comunicação e pelas culturas hegemônicas sobre as civilizações do Oriente e do Sul Global são distorcidas e banalizadas: tratam-se de representações estereotipadas, como Edward Said destaca em obras como “Orientalismo” (1978), “A questão palestina” (1979), “Covering Islam” (1981), “Blaming the Victims” (1988), e outros livros.

O papel dos meios de comunicação hegemônicos e da comunicação de massa.

Já nos anos 1970, Guy Debord ressaltava a centralidade dos meios de comunicação de massa, marcando uma nova fase na história da opressão social e política. Mais recentemente, em seus escritos sobre o capitalismo de vigilância, Shoshana Zuboff destaca o golpe epistêmico, ou seja, o golpe decretado pelas corporações tecnológicas para reivindicar a propriedade do saber na sociedade:

Em uma civilização da informação, as sociedades são definidas por questões de conhecimento – como ele é distribuído, a autoridade que governa sua distribuição e o poder que protege tal autoridade. Quem sabe? Quem decide quem sabe? Quem decide quem decide quem sabe? Os capitalistas da vigilância agora têm as respostas para cada pergunta, mesmo que nunca os tenhamos eleito para governar. Essa é a essência do golpe epistêmico. Eles reivindicam a autoridade de decidir quem sabe, afirmando os direitos de propriedade sobre nossas informações pessoais e defendem essa autoridade com o poder de controlar sistemas e infraestruturas informativas críticas.

Com o trabalho de Mattias Desmet chegamos à elaboração do conceito de totalitarismo, que se baseia em um poderoso processo psicológico, o da massificação dos cidadãos. Trata-se, essencialmente, de uma forma de hipnose coletiva que priva os indivíduos da capacidade de distanciamento crítico e de poder apelar à própria consciência. Desmet retoma a visão distópica do futuro evocada por Hannah Arendt, segundo a qual um novo tipo de totalitarismo, guiado por burocratas e tecnocratas, teria surgido após a queda do nazismo e do stalinismo. No totalitarismo, que demonstra um radical desprezo pelos fatos, muitas pessoas não conseguem distinguir entre realidade e ficção oficializada. Assim, produz-se um conformismo generalizado: no mundo globalizado atual, embora tenha acesso a todos os tipos de informação, o ser humano tem a possibilidade de escolher, mas não dispõe de instrumentos para uma verdadeira autonomia e, de fato, torna-se passivo e manipulável.

Nesse contexto, os meios de comunicação de massa atuam globalmente como instrumento de propaganda da ação política e do totalitarismo, na direção de uma servidão voluntária, porém induzida externamente: é fundamental, portanto, compreender o papel da informação em relação às dinâmicas globais de apoio aos projetos neocoloniais ocidentais. É também necessário analisar e decodificar a linguagem (a semântica e a representação antropológica) utilizada pelos meios de comunicação ocidentais em relação aos países objeto de interesse estratégico/geopolítico/econômico.

Como é definida a luta de libertação/resistência dos povos palestino, sírio, iraquiano, afegão, iemenita, etc. contra os invasores? Como são definidos, descritos e representados os resistentes e seus líderes? Não são talvez sempre terroristas, não civilizados, violadores dos direitos humanos, ameaças ao nosso estilo de vida?

A questão dos direitos humanos.

Os discursos e as narrativas referentes aos direitos humanos revelaram-se ineficazes, contraditórios e frequentemente destituídos de significado, nos últimos anos. Isso ocorre porque, em muitos casos, são utilizados para justificar ou sustentar violências e injustiças perpetuadas a partir de uma perspectiva eurocêntrica, profundamente enraizada no sistema colonial.

A visão etnocêntrica europeia moderna apresenta-se como sinônimo de “universalidade-mundialidade”, estabelecendo uma divisão entre um grupo considerado superior, representado pelo homem branco ocidental, e “os outros”, vistos como “primitivos”, “bárbaros” e “atrasados”, que devem ser civilizados, muitas vezes através da violência e das guerras. A violência é legitimada como um “mal necessário” e as vítimas como “efeitos colaterais”: tudo isso apesar dos direitos humanos – criados pelos países hegemônicos ocidentais para garanti-los seguindo regras impostas por eles mesmos, geralmente aplicando “dois pesos e duas medidas”, nunca a favor do Sul Global.

Essa visão dos direitos humanos faz parte da geopolítica global contemporânea, onde o controle da ONU através do poder de veto frequentemente invalida decisões coletivas dos Estados-membros – veja-se, por exemplo, as numerosas resoluções do Conselho de Segurança contra a limpeza étnica e o genocídio dos nativos palestinos em curso desde 2023, sistematicamente vetadas pelos EUA. Os próprios direitos humanos são utilizados para justificar a derrubada de regimes inimigos do Ocidente hegemônico. Nesses casos, as denúncias são geralmente rápidas e amplamente divulgadas pelos meios de comunicação hegemônicos, que constituem um instrumento essencial para reforçar essas narrativas.

O uso de “dois pesos e duas medidas” no direito internacional é ainda mais evidente nos últimos tempos, com as guinadas abertamente neocoloniais de uma parte do Ocidente coletivo que aniquila os Estados-nação de outros países, pois «a colônia tornou-se uma modalidade de domínio global ultrapassando as fronteiras tradicionais». O discurso de posse de Donald Trump na Casa Branca, em 20 de janeiro de 2025, tornou tudo isso explícito, ao anunciar seus planos neocoloniais em relação a vários Estados soberanos e apoiar incondicionalmente a colonização da Faixa de Gaza destruída por Israel, para transformá-la, sem rodeios, na “Riviera do Oriente Médio”.

De Holocausto Palestino, Angela Lano. Edizioni Al Hikma, Ímperia, 2025.

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