
Gaza. Mais de dois anos de agressão israelense incessante e deslocamento forçado empurraram crianças e jovens na Faixa de Gaza para o que a ONU descreveu como uma “profunda emergência de saúde mental”, com as meninas enfrentando riscos maiores.
“Temos mais de um milhão de crianças em Gaza que necessitam de serviços de apoio à saúde mental e psicossocial”, declarou recentemente à UN News Sima Alami, responsável pelo programa para adolescentes e jovens na agência da ONU para a saúde sexual e reprodutiva, UNFPA.
Segundo dados do UNFPA citados por Alami, 96 por cento das crianças em Gaza sentem que a morte é iminente. “Isso reflete a profundidade do medo e do trauma que vivenciam diariamente”, destacou.
Entre adolescentes e jovens, frequentemente negligenciados em crises humanitárias, o impacto psicológico é igualmente grave. Cerca de 61 por cento sofre de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), 38 por cento de depressão e 41 por cento de ansiedade. “Alarmante é que um adulto em cada cinco contempla o suicídio quase todos os dias”, acrescentou.
“Isso não é simplesmente sofrimento psicológico”, enfatizou Alami. “É uma emergência generalizada de saúde mental”.
Dentro dessa crise, as meninas também estão entre as mais vulneráveis. Em Gaza, o casamento infantil, que anteriormente estava em queda, voltou a aumentar drasticamente. As taxas haviam caído de 25,5 por cento em 2009 para 11 por cento em 2022, mas agora estão aumentando novamente à medida que as famílias lutam para sobreviver, segundo a funcionária da ONU.
Um estudo recente do UNFPA constatou que 71 por cento dos entrevistados em Gaza relataram maior pressão para casar meninas com menos de 18 anos. Em um curto período de monitoramento apenas, foram emitidas mais de 400 licenças de casamento para meninas entre 14 e 16 anos nos tribunais de emergência, mas os números provavelmente estão subestimados.
“Algumas famílias veem o casamento como uma estratégia de sobrevivência em meio ao deslocamento, à pobreza e à insegurança”, explicou Alami. Outras acreditam que isso oferece proteção em abrigos superlotados ou ajuda a aliviar as dificuldades econômicas após o colapso dos meios de subsistência.
Ela destacou a necessidade de respostas integradas que conectem o apoio psicossocial com serviços de alimentação, saúde e educação em Gaza.
