Como os fundos do Golfo financiam a economia israelense por meio de projetos pelos quais ninguém é responsável

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Por G.G. BCG, McKinsey, Bain, Teneo e a rede 8200: Como os fundos do Golfo financiam a economia israelense por meio de projetos pelos quais ninguém é responsável
Introdução.
O círculo que se fecha.
Esta não é uma história de conspiração. É uma história de arquitetura. De como se constroem pontes invisíveis entre mundos que deveriam estar distantes: o Estado de Israel, os fundos soberanos do Golfo, as consultorias americanas, e projetos controversos como o para Gaza, pelos quais ninguém, no final, quer assumir a responsabilidade.

É uma história que fala de pessoas. Pessoas que saem do exército israelense, entram em escritórios luxuosos em Tel Aviv, Londres e Nova York, e se tornam o lubrificante de um mecanismo que movimenta bilhões. Pessoas que organizam encontros, escrevem slides, constroem modelos financeiros. Pessoas que, quando algo dá errado, desaparecem nos bastidores, protegidas por contratos, por empresas, por muros de papel.

É uma história que reconstruímos passo a passo, pergunta após pergunta, partindo dos três milhões de páginas do caso Epstein, passando por Tony Blair e o Boston Consulting Group, e chegando a descobrir uma arquitetura muito maior.

Agora, tentamos contá-la com palavras simples.

Parte I.
A fábrica de talentos: a Unidade 8200.
Para entender todo o resto, é preciso partir de um lugar que não se encontra nos mapas turísticos de Israel: a Unidade 8200.

É a unidade de inteligência mais importante das forças armadas israelenses. Cuida de interceptações, cibersegurança, descriptografia. Seus soldados não combatem com fuzis: combatem com computadores. Todos os anos, o exército israelense seleciona os melhores jovens de dezoito anos do país – aqueles com o QI mais alto, a maior capacidade analítica, a resistência psicológica mais forte – e os coloca em um programa que dura de quatro a seis anos.

O que aprendem na 8200?

Não aprendem apenas a fazer hacking. Aprendem a ler o mundo. A pegar informações fragmentadas, confusas, contraditórias, e construir uma história que faça sentido. Aprendem a trabalhar em equipe sob pressão extrema. Aprendem a traduzir problemas técnicos em decisões estratégicas. Aprendem que o inimigo nunca é apenas o que se vê.

Quando saem – entre os 22 e os 25 anos – esses rapazes e moças não são simplesmente ex-soldados. São produtos de altíssimo valor. Sabem coisas que seus colegas americanos ou europeus aprenderão, quando muito, dez anos depois, pagando universidades caríssimas.

E têm uma qualidade a mais: falam a mesma língua. Passaram anos juntos, em condições extremas. Confiam uns nos outros como só se confia na guerra. Têm uma rede que dura a vida toda.

Essa rede é o verdadeiro tesouro de Israel.

Parte II.
A entrada no mundo: as consultorias.
Quando um ex-integrante da 8200 sai do exército, tem três caminhos principais:

Entrar em uma startup tecnológica israelense;

Fundar sua própria empresa;

Entrar em uma consultoria global.

McKinsey, BCG, Bain – os chamados “três grandes” da consultoria estratégica – têm escritórios em Tel Aviv há décadas. E há décadas recrutam sistematicamente ex-integrantes da 8200. Não publicitam isso, mas o fazem. Por quê?

Porque um ex-integrante da 8200 é o consultor perfeito:

sabe analisar problemas complexos;

sabe trabalhar 18 horas por dia;

sabe manter segredos;

sabe mover-se em ambientes ambíguos;

tem uma rede de contatos que vale ouro.

Mas há outra razão, mais importante. As consultorias não vendem apenas competências. Vendem acesso. Quando um fundo soberano da Arábia Saudita ou dos Emirados quer entender como investir em tecnologia, chama a McKinsey. E a McKinsey envia uma equipe. E nessa equipe, muito frequentemente, há um ex-integrante da 8200.

Por quê? Porque o ex-integrante da 8200 sabe como falar com os sauditas? Não. Sabe como falar com os outros ex-integrantes da 8200 que fundaram as startups nas quais os sauditas querem investir. Sabe quem chamar, a quem apresentar, como estruturar o negócio. Sabe traduzir a linguagem da inteligência em linguagem financeira.

Esta é a primeira peça do círculo.

Parte III.
O caso Gili Raanan: da McKinsey à Cyberstarts.
Detenhamo-nos num nome: Gili Raanan.

Raanan é um ex-oficial da Unidade 8200. Após o serviço, entrou na McKinsey. Trabalhou por anos como consultor estratégico, aprendendo o ofício, construindo relações, tornando-se um profissional reconhecido.

Depois, fez algo que muitos ex-integrantes da 8200 fazem: saiu da consultoria e entrou no venture capital. Fundou a Cyberstarts, um fundo que investe em startups cibernéticas israelenses.

Quem financia a Cyberstarts?

Entre os principais investidores do fundo está a Mubadala, o fundo soberano de Abu Dhabi. Emirados Árabes Unidos e Israel, até 2020, não tinham relações diplomáticas. No entanto, a Mubadala investia na Cyberstarts já desde 2016-2017.

Como é possível? Simples: a Mubadala não investia em Israel. Investia em Gili Raanan. Um ex-McKinsey, ex-8200, homem respeitado, garantia viva de que o dinheiro seria bem gerido, que as startups seriam sérias, que não haveria escândalos.

Esta é a segunda peça do círculo.

Parte IV.
O circuito: como funciona o sistema.
Agora, juntemos as peças.

Fase 1 – A produção.
A Unidade 8200 forma dezenas de jovens por ano. Torna-os máquinas analíticas perfeitas. Liga-os com um vínculo de confiança que durará para sempre.

Fase 2 – O aperfeiçoamento.
McKinsey, BCG, Bain contratam esses jovens. Colocam-nos para trabalhar em projetos globais. Ensinam-lhes a linguagem das finanças, das multinacionais, dos governos. Transformam-nos de “ex-militares” em “consultores internacionais”.

Fase 3 – A seleção.
Após 5 a 10 anos em consultoria, muitos saem. Alguns tornam-se empreendedores. Alguns entram no venture capital. Alguns vão diretamente para os fundos soberanos. Quem os financia? Frequentemente, os mesmos fundos soberanos que conheceram durante os anos na consultoria.

Fase 4 – O investimento.
Os fundos soberanos do Golfo – Mubadala, PIF saudita, QIA do Catar – investem nos fundos liderados por ex-integrantes da 8200. Não investem diretamente em Israel. Investem em pessoas que conhecem e em quem confiam. Pessoas que falam sua linguagem. Pessoas que passaram anos na McKinsey ou no BCG e, portanto, sabem como o mundo funciona.

Fase 5 – A multiplicação.
Os fundos liderados por ex-integrantes da 8200 investem em startups israelenses. As startups crescem. Quando precisam expandir-se para o Golfo, quem chamam? Novamente, as consultorias. Que lhes enviam – vejam só – outros ex-integrantes da 8200. O círculo se fecha.

Parte V.
O projeto GREAT Trust: quando o sistema produz um monstro.
Em 2025, esse mecanismo produziu um projeto que gerou escândalo: The GREAT Trust.

Era um plano para Gaza. Previa:

a transferência “voluntária” de 500.000 palestinos para fora da Faixa;

um incentivo de 9.000 dólares por pessoa;

campos de refugiados chamados de “zonas de trânsito humanitário”;

a construção de uma “Riviera de Gaza” com ilhas artificiais e megaprojetos com os nomes de Trump, Elon Musk, Mohammed bin Salman.

Quem estava por trás?

Havia empreendedores israelenses (Michael Eisenberg, Liran Tancman). Havia consultores do Boston Consulting Group que trabalharam de graça no projeto, sem autorização, usando metodologias empresariais. Havia Phil Reilly, ex-agente da CIA, ex-consultor de meio período da BCG, que se encontrou com Tony Blair em Londres para falar sobre o projeto. Havia o Tony Blair Institute, que compartilhou documentos internos com o grupo de trabalho. Havia os logotipos de 28 multinacionais – Ikea, Tesla, Amazon, TSMC – usados sem permissão para dar credibilidade ao projeto.

Quem era o responsável?

No final, ninguém.

A BCG disse: “Os sócios agiram sem autorização, nós os demitimos”.

O TBI disse: “Nós estávamos ouvindo, não éramos autores”.

Reilly disse: “Eu era um consultor de meio período, não um diretor”.

Os empreendedores disseram: “Era um exercício de pesquisa de mercado”.

Todos diziam a verdade, formalmente. Mas o projeto existia. Os slides existiam. Os modelos financeiros existiam.

Este é o paradoxo da plataforma: permite fazer coisas sem que ninguém as tenha feito.

Parte VI.
Por que ninguém é responsável.
Agora podemos entender por que nesta história ninguém nunca é responsável.

Primeiro: a fragmentação.
O projeto GREAT Trust não foi realizado por uma organização. Foi realizado por uma rede. Gente que se conhecia, que confiava, que trabalhava junto há anos. Mas quando chega o escândalo, cada um pode dizer: “Eu fiz só a minha pequena parte. Não sabia do resto”.

Segundo: a desintermediação.
O dinheiro nunca chega diretamente. A Mubadala não paga a BCG pelo GREAT Trust. A Mubadala paga a Cyberstarts. A Cyberstarts paga startups. As startups pagam a BCG por consultorias. Os consultores trabalham de graça para o GREAT Trust. Quando o escândalo explode, o dinheiro já desapareceu numa cadeia de transações impossível de reconstruir.

Terceiro: a proteção contratual.
As consultorias são mestras em escrever contratos que as protegem. Não são “responsáveis” pelos projetos de seus clientes. Não são “responsáveis” pelo que fazem seus ex-funcionários. Não são “responsáveis” pelo que fazem seus consultores de meio período.

Quarto: o poder da rede.
Quando todos se conhecem, quando todos sabem que amanhã podem precisar uns dos outros, ninguém fala. Ninguém denuncia. Ninguém testemunha. A rede protege a si mesma.

Parte VII.
O papel de Tel Aviv: por que Israel vence.
Em tudo isso, qual é o papel de Israel?

Israel não ordena, não controla, não dirige. Israel produz. Produz talento. Produz relações. Produz confiança.

A Unidade 8200 é a maior fábrica de capital humano do Oriente Médio. Seus ex-alunos estão em toda parte: nas consultorias, nos fundos de venture capital, nos fundos soberanos, nas multinacionais. Falam a mesma língua, compartilham a mesma história, confiam uns nos outros.

Quando um fundo soberano do Golfo quer investir em tecnologia, não vai a Israel. Vai a um ex-integrante da 8200 que trabalha em Londres. Esse ex-integrante da 8200 conhece outros ex-integrantes da 8200 em Tel Aviv. Organiza encontros, apresenta startups, estrutura acordos. O dinheiro entra em Israel sem que ninguém o tenha “trazido”. Simplesmente, o circuito funciona.

Israel não precisa fazer lobby. Precisa continuar a produzir integrantes da 8200. O resto a rede faz.

Parte VIII.
McKinsey como nó estrutural.
Em nossa análise inicial, tínhamos subestimado a McKinsey. Era um erro.

A McKinsey não é “mais uma consultoria”. A McKinsey é o modelo original.

A McKinsey formou Gili Raanan.

A McKinsey tem dezenas de ex-integrantes da 8200 em seus escritórios de Tel Aviv, Londres, Nova York.

A McKinsey foi chamada pelo Congresso dos EUA em fevereiro de 2024, exatamente como a BCG, para explicar suas relações com a Arábia Saudita.

A McKinsey alertou seus funcionários na Arábia Saudita de que corriam risco de prisão se revelassem detalhes de seu trabalho para o regime.

A McKinsey, como a BCG, escolheu “o lado saudita” quando colocada entre a bigorna do Congresso e o martelo de Riade.

A McKinsey é parte integrante da plataforma. Não é uma concorrente da BCG. É uma aliada, uma sócia, um nó da mesma rede. Juntas, formam a infraestrutura que permite que os capitais do Golfo fluam para Israel e as competências israelenses fluam para o Golfo.

Parte IX.
O sentido humano.
Por trás de tudo isso, há pessoas.

Há jovens de 18 anos que entram na 8200 e ainda não sabem o que se tornarão. Há consultores de 30 anos que trabalham 80 horas por semana e não têm tempo para se perguntar se o que estão fazendo é certo. Há gerentes de 50 anos que construíram carreiras sobre relações e agora não podem mais recuar.

Há Gili Raanan, que provavelmente acredita sinceramente estar fazendo o bem: ajudar startups israelenses a crescer, trazer capitais para Israel, construir pontes com o mundo árabe. E talvez seja verdade. Talvez o mal nunca esteja nas intenções, mas no sistema.

Há Phil Reilly, ex-agente da CIA, que passou a vida em zonas de guerra e agora organiza a segurança para uma fundação humanitária em Gaza. Talvez pense que ainda está servindo seu país, ou talvez não. Talvez seja apenas um profissional que faz seu trabalho.

Há os sócios da BCG demitidos por terem trabalhado de graça num projeto louco. Erraram? Obedeceram a alguém? Queriam apenas fazer carreira?

Nunca saberemos. Porque o sistema é construído para não deixar saber. Porque a responsabilidade é como o mercúrio: escorrega, fragmenta-se, desaparece.

Conclusão.
O círculo que se fecha.
Agora podemos ver o círculo completo.

No centro, está a Unidade 8200, que produz talento.

Ao redor, as consultorias – McKinsey, BCG, Bain, Teneo – que aperfeiçoam esse talento e o colocam em rede.

Mais externamente, os fundos soberanos do Golfo – Mubadala, PIF, QIA – que financiam os fundos liderados por ex-integrantes da 8200.

Na periferia, as startups israelenses que crescem com esses capitais.

E em toda parte, projetos como The GREAT Trust: iniciativas que ninguém ordenou, pelas quais ninguém é responsável, mas que existem, circulam, influenciam decisões, e quando o escândalo explode se dissolvem no ar como neblina.

Isto não é uma conspiração. É um mercado. Um mercado onde a mercadoria mais preciosa não é o dinheiro, mas as relações. Onde a confiança vale mais que o capital. Onde a responsabilidade é um custo que ninguém quer pagar.

Israel produz relações. As consultorias as certificam. Os fundos do Golfo as compram. O círculo se fecha.

E nós, no final, só podemos observar e tentar entender. Porque quando tudo está conectado, quando todos se conhecem, quando o dinheiro viaja invisível e as responsabilidades se fragmentam, a única coisa que resta é a pergunta:

Quem decide, verdadeiramente?

E a resposta, talvez, seja: ninguém. Ou todos. Ou o próprio sistema, que agora se move sozinho.

Epílogo.

O que não sabemos.
Esta história tem muitos buracos. Não sabemos os nomes de todos os ex-integrantes da 8200 que trabalham na McKinsey e no BCG. Não sabemos exatamente quanto a Mubadala investiu na Cyberstarts. Não sabemos se Tony Blair sabia realmente o que estava nascendo quando se encontrou com Phil Reilly.

Mas sabemos o suficiente para ver o modelo. O suficiente para entender que não é um acaso. O suficiente para contá-lo com palavras simples.

O resto descobriremos. Ou talvez não. Porque sistemas como este são feitos para não serem descobertos. E quando você pensa que os agarrou, escapam por entre os dedos.

Como o mercúrio. Como a responsabilidade. Como a verdade.

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