
por Michele Metta (*)
Como é sabido por qualquer pessoa que tenha assistido ao célebre filme de Oliver Stone sobre o assassinato de John Kennedy, o então Promotor Distrital de Nova Orleans reabriu as investigações sobre aquele homicídio em 1967, incriminando o empresário norte-americano Clay Shaw.
Tanto o filme de Stone quanto o livro escrito pelo próprio Garrison sobre esses fatos, intitulado À procura dos assassinos, contam como Clay Shaw trabalhava para uma estranha Sociedade Anônima com sede aqui na Itália, em Roma, chamada Centro Mundial Comercial (Centro Mondiale Commerciale, CMC).
Com base em uma investigação conduzida, também em 1967, pelo jornal Paese Sera, Garrison intuiu que, por trás do CMC, se escondia na realidade a CIA. Certamente, Garrison, em certo momento, também compreendeu a presença do Mossad, visto que redigiu um manuscrito, infelizmente nunca publicado, no qual acusava de envolvimento no assassinato de John Kennedy também o próprio serviço de espionagem israelense. [1]
O que eu fiz foi procurar e consultar os documentos societários, os quais, como ocorre por lei com todas as sociedades anônimas, estão depositados na Câmara de Comércio. Do estudo desses documentos emergem elementos capazes de fazer compreender a total fundamentação tanto da investigação do Paese Sera quanto da de Jim Garrison.
O que emerge dos documentos do CMC, de fato, é, antes de tudo, a presença, em sua diretoria, de personagens que também são citados pela Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a P2, presidida por Tina Anselmi. São eles Roberto Ascarelli e Virgilio Gaito. Essa Comissão os cita porque ambos tiveram um papel fundamental na ascensão de Licio Gelli.
Também emerge, nos papéis do CMC, que houve inclusive reuniões do Centro Mundial Comercial no centro de Roma, na Piazza di Spagna 72/a. Mas esse endereço era também a sede de duas lojas secretas: a própria loja P2 e a loja Hod, esta última definida, pelos testemunhos interrogados pela Comissão Anselmi, como “a antecâmara” ou “irmã gêmea” da P2.
Que aquele endereço na Piazza di Spagna tenha sido o berço onde cresceu a P2 foi confirmado explicitamente pelo próprio Gelli, que o descreve assim no livro-entrevista Parola di Venerabile.
O CMC podia, além disso, contar com o apoio financeiro de bancos que colaboravam com a CIA. [2]Em seguida, no CMC, figura também Giuseppe Pièche, um general ligado à rede Stay-behind da OTAN e ao golpista Edgardo Sogno, tal como indicado nos Atos da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os Massacres.
Pièche utilizou essa rede também para proteger o Movimento Social Italiano, partido do qual nasceu o atual Fratelli d’Italia, hoje no governo de nosso país.
Igualmente — não membro formal do CMC, mas fortemente conivente com o Centro Mundial Comercial — estava outro general, também ele golpista e membro da P2: Giovanni de Lorenzo, um dos pais da Gladio.
A descobrir pela primeira vez as conexões entre De Lorenzo e o CMC foi o já mencionado jornal Paese Sera, através do conteúdo de documentos num artigo publicado em novembro de 1967.
Acontece que, em 1962, De Lorenzo, na qualidade de chefe do SIFAR (Serviço de Informações das Forças Armadas), firmou um pacto com a CIA justamente contra John Kennedy. [3]
Ao lado desses fascistas, no CMC encontramos também figuras de destaque israelenses ou ligadas a Israel.
Um dos membros do Centro Mundial Comercial, de fato, era Gershon Peres, irmão de um dos presidentes mais famosos de Israel, Shimon Peres.
Fontes israelenses indicam esse irmão como agente do Mossad.
Para ser ainda mais preciso, Gershon Peres iniciou sua atividade de espionagem nos anos 1940, quando essa agência ainda era chamada HaMahlaka HaMedinit, que em hebraico significa, de modo enganoso, “Departamento Político”. [4]
Ressalto que não pode tratar-se absolutamente de um caso de homonímia: os dados pessoais presentes nos documentos do CMC — local e data de nascimento — o identificam claramente como tal.
Além disso, outro membro do CMC, Alberto Forte, era o diretor executivo do Banque Belgo-Centrade, uma filial do Swiss-Israel Trade Bank de Genebra.
Como revelado novamente por várias fontes israelenses, o Swiss-Israel Trade Bank era uma cobertura do Mossad. [5]
E ainda, o acionista majoritário do CMC, Louis Bloomfield, estava fortemente envolvido no desenvolvimento do arsenal nuclear israelense na central de Dimona. [6]
Deve-se certamente recordar que John Kennedy entrou em profundo atrito com Israel justamente por causa de sua firme oposição a Dimona, pois via o projeto, com razão, como fonte de instabilidade regional e mundial.
Preocupado com o fato de que Dimona pudesse comprometer as esperanças de paz do planeta, John Kennedy chegou a enviar um ultimato, no qual explicava que, se as coisas não mudassem, a aliança entre os Estados Unidos e Israel chegaria ao fim, e ele imporia sanções econômicas contra aquele país. [7]
Ainda mais interessante é o fato de que o já citado membro do CMC Giuseppe Pièche fosse, além de chefe, como já dito, de uma rede da OTAN na Itália, também membro de uma rede de espionagem com ligações com Israel, apesar de seu passado nos altos escalões da espionagem de Mussolini.
Essa rede era convencionalmente conhecida como L’Anello (“O Anel”), e seus vínculos com Israel e Pièche foram evidenciados por dois grandes especialistas da Estratégia da Tensão: Aldo Giannuli [8] e Giacomo Pacini [9].
O fundador de L’Anello era Nahum Hotimsky, nascido em 1905 em Kryukov, um pequeno subúrbio no leste da Ucrânia.
Hotimsky era membro de alto escalão do Mossad.
Como confirmação adicional, quando, a partir de 1945, Hotimsky viveu na Itália, tornou-se empregado da Tefilex, uma filial da Overseas Discount Corporation.
O presidente da Overseas era Aron Benatoff.
Documentos dos serviços secretos italianos demonstram que Benatoff prestava auxílio ao Mossad. [10]
Ainda graças a Pièche, chegamos também a um dos aspectos infelizmente mais desconhecidos da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a P2.
Refiro-me ao fato de que essa comissão descobriu a existência de um “lado italiano” no assassinato de John Kennedy, e que esse lado envolvia um agente da CIA e maçom de altíssimo grau: Frank Gigliotti.
Entre os testemunhos considerados na investigação de Tina Anselmi, figura também um grão-mestre da maçonaria, Enzo Milone, que foi autor de cartas nas quais explicava que Gigliotti, a mando da CIA e do Departamento de Estado dos EUA, então chefiado por Foster Dulles, irmão de Allen Dulles (chefe da CIA), teria vindo à Itália em julho de 1960 com o objetivo de firmar um pacto secreto com a maçonaria italiana para garantir que John Kennedy, então apenas candidato, jamais se tornasse presidente dos Estados Unidos.
Anos após as revelações de Milone, Bruno Rozera, uma alta autoridade maçônica, confessou em entrevista à revista L’Espresso que o cúmplice dessa operação de Gigliotti havia sido justamente Giuseppe Pièche. [11]
À confissão de Rozera deve ser somado outro dado estarrecedor: dois documentos dos serviços de inteligência italianos fornecem provas que conectam Enrico Frittoli, homem ligado a Licio Gelli, ao Carcano, o fuzil italiano — resquício bélico fascista —, curiosamente encontrado em Dallas no dia do assassinato de Kennedy, e com o qual Lee Harvey Oswald, o bode expiatório, foi acusado de ter tirado a vida do 35º presidente dos Estados Unidos. [12]
Outro membro do CMC, o político Corrado Bonfantini, era um estreito colaborador italiano de James Angleton.
Foi justamente graças a uma operação secreta conjunta entre Angleton e Bonfantini que foi salvo Valerio Borghese, em troca da colaboração deste último na criação da rede Gladio Stay-behind. [13]
O vínculo com Angleton é a explicação perfeita para a mistura entre fascistas, CIA, Mossad, rede OTAN Stay-behind e apoiadores da P2 de Gelli dentro do CMC.
Com efeito, James Angleton era o chefe tanto do contra-espionagem da CIA quanto de um departamento especial da CIA dedicado à cooperação entre CIA e Mossad.
Essa fusão é representada de modo exemplar também por outro membro já mencionado do Centro Mundial Comercial: Roberto Ascarelli, que, além de aliado íntimo do fascista Licio Gelli, era também um dos membros mais proeminentes da elite judaica italiana e internacional.
É realmente impossível concluir sem destacar que, nos dias de hoje, está no poder na Itália uma aliança entre os herdeiros de Silvio Berlusconi, membro de destaque da P2, e os herdeiros do Movimento Social Italiano — e que essa aliança governamental está entre as que mais abertamente defendem e apoiam o genocídio cometido pelo exército israelense contra o povo palestino.
Igualmente impossível é não recordar algumas sentenças da magistratura italiana sobre Licio Gelli.
Antes de tudo, a decisão judicial que o indicou não apenas como desviador das investigações sobre o horrendo atentado de Bolonha de 1980, mas inclusive como um dos planejadores e financiadores desse massacre fascista, inqualificável e insano. [14]
Há ainda a sentença que, em 2014, estabeleceu outro fato de extrema importância: a que revelou como um despiste (isto é, uma operação de desinformação) a tentativa conduzida também por Gelli de atribuir o massacre de Bolonha à “mão palestina”.
À luz do que foi exposto neste artigo, é evidente que uma outra forma adequada de descrever esse despiste é afirmar que elementos do sionismo italiano tentaram imputar ao povo mais odiado pelo sionismo — o povo palestino — um dos mais abomináveis crimes de sangue da história recente, com o claro intuito de provocar indignação mundial contra a Palestina, com consequências facilmente imagináveis. [15]
Em suma, tratou-se de uma operação semelhante àquela ligada ao assassinato do irmão de JFK, Robert Kennedy, atribuída ao inocente palestino Sirhan Sirhan, que havia sido, na verdade, hipnotizado para agir de modo aparentemente incriminador — como foi, aliás, reconhecido publicamente por membros da própria família Kennedy. [16]
Nota biográfica
Michele Metta, jornalista e historiador, é autor de vários ensaios sobre o assassinato de John Kennedy, nos quais revelou as conexões entre Israel e esse homicídio.
Sua obra mais recente sobre o tema, dividida em dois volumes, intitula-se “JFK and the Unspeakable Secret”, disponível na Amazon.
Seu trabalho foi amplamente elogiado e teve repercussão nos Estados Unidos, tornando-se objeto de artigos escritos por Jim DiEugenio, ensaísta e colaborador de Oliver Stone.
O conteúdo deste artigo é uma reformulação resumida em italiano de alguns trechos extraídos de JFK and the Unspeakable Secret.
Referências (mantidas conforme o texto original):
[1] Weberman and Canfield, Coup d’Etat in America.
[2] Sul legame tra tali banche e CIA, vedi, per esempio, Kinzer, The Brothers
[3] Faenza, Il Malaffare; De Lutiis, Storia dei Servizi Segreti in Italia.
[4] Faenza, Il Malaffare; De Lutiis, Storia dei Servizi Segreti in Italia.
[5] HAARETZ, Ofer Aderet, Yehuda Assia banker to the Mossad, dies at 99, 3 settembre 2016. Vedi anche, WEIZMANN INSTITUTE OF SCIENCE, Interview with Yehuda Assia, 1 maggio 1997; Marshall, Dark Quadrant: Organized Crime, Big Business, and the Corruption of American Democracy.
[6] Su Bloomfield e Dimona, vedi Michael Karpin, The Bomb in the Basement: How Israel Went Nuclear and What That Means for the World.
[7] ISRAEL STUDIES, Shalom, Kennedy, Ben-Gurion and the Dimona Project 1962-1963, Spring 1996. Anche in Cohen, Israel and the Bomb.
[8] Procura della Repubblica presso il Tribunale di Brescia, Procedimento penale n.91/97 mod. 21, Relazione di Consulenza del dott. Aldo Sabino Giannuli, Sunto delle principali risultanze in merito al “Noto Servizio”, 31 ottobre 2000.
[9] Pacini, Le altre Gladio.
[10] Direzione centrale della polizia di prevenzione, Fascicolo Aron Benatoff.
[11] L’ESPRESSO: Fabrizio Gatti, La massoneria dietro B., 24 gennaio 2011.
[12] Tali documenti sono negli Atti della Commissione parlamentare di inchiesta sulla Loggia massonica P2. Più precisamente, si tratta degli allegati alla Relazione. Doc. XXIII, n. 2-quarter, Vol. VII, Tomo XI. Del legame tra il Carcano e Gelli, ne parlano i giornalisti Buffa e Ficoneri in un loro articolo uscito il 29 maggio 1977 per il settimanale l’Espresso. Tale articolo è ripreso nel saggio di Guarino e Raugei, Gli anni del disonore.
[13] Sul salvataggio di Borghese a opera di Bonfantini e Angleton, vedi: Massignani, Greene, Il principe nero; Casarrubea, Lupara nera. Molto utile anche l’intervista di Angleton al settimanale EPOCA: Valerio Borghese ci serviva, 11 febbraio 1976
[14] AGENZIA ANSA, Strage Bologna: Bellini esecutore e Gelli mandante, 11 febbraio 2020; L’ESPRESSO, Paolo Biondani, Strage di Bologna, ecco perché Licio Gelli finanziò lʼeccidio neofascista, 6 Aprile 2023; Paolo Biondani, 2 agosto, una strage fascista e piduista: la verità su Bologna che la destra rifiuta, 31 luglio 2023.
[15] Procedimento penale n. 13225/11 r.g.n.r – 8757/12 r.g.g.i.p., Kram, richiesta di archiviazione del 30 luglio 2014 del procuratore della Repubblica di Bologna Roberto Alfonso e del sostituto Enrico Cieri; Decreto di archiviazione del 9 febbraio 2015 del gip di Bologna Bruno Giangiacomo.
[16] Vedi la mia intervista alla avvocato di Sirhan Sirhan, leggibile all’indirizzo seguente: https://www.lantidiplomatico.it/dettnews-laurie_dusek_avvocato_di_sirhan_spiega_che_anche_il_figlio_di_robert_kennedy_crede_nellinnocenza_del_proprio_assistito/82_25094/.
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(*) Michele Metta, author of CMC: The Italian Undercover CIA and Mossad Station and the Assassination of JFK, revealed that numerous connections existed between CMC and Licio Gelli’s P2 Masonic Lodge. Metta has also documented a Masonic plot between American and Italian Freemasons to “influence Italian immigrants in the USA to vote against Kennedy,” in the words of Enzo Milone, Grand Master of the Freemasons, to the Christian Democratic Member of Parliament, Elio Rosati, dated September 24, 1960. The plot was hatched by CIA agent Frank Gigliotti and organized by Giuseppe Pièche, a member of the CMC. In Puppetmasters: The Political Use of Terrorism in Italy, Philip Willan reveals that Gigliotti played an important role in the Masonic activities of Lucio Gelli.
