Sobre os escombros de Gaza nasce o clube privado de Trump

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Palestina. Il Manifesto. Em Davos, 19 países assinam a pena de morte do direito internacional: é o Board of Peace. Os palestinos são a primeira cobaia, não a última. Um projeto comercial sobre um genocídio, nenhuma referência às vítimas. Paris e Londres se retiram.

Qualquer pessoa de bom senso precisará de alguns dias para digerir o show de Davos e estabelecer qual imagem foi a mais adequada à atmosfera apocalíptica que se respira ultimamente.

Se a de Donald Trump agradecendo a si mesmo por ter se nomeado presidente do Board of Peace ou a comoção de Steve Witkoff quando se inclina diante dos sucessos sem fronteiras de seu presidente.

Se Jared Kushner que salivava com a ideia da montanha de bilhões que renderá a transformação de Gaza de comunidade viva em um asséptico condomínio, ou os rostos dos 19 chefes de Estado e diplomatas enfileirados para assinar a pena de morte do direito internacional, uma fileira de autocratas que a Trump «gostam tanto, gosto de todos», porque o que lhe agrada são os regimes, sobretudo se abanam o rabo.

MAS TALVEZ, investindo alguns dias na digestão, o que restará do lançamento do Board of Peace, ontem de manhã em Davos, é a mensagem histórica que enviou: um projeto colonial e comercial, totalmente ilegítimo e surgido sobre o aniquilamento de um povo que, vejam só, «se faz organização internacional». É o laboratório para o futuro, uma economia política do genocídio da qual os palestinos são a primeira cobaia, mas não serão a última.

Foi Donald Trump quem disse: «(Gaza) tem uma ótima localização… no fundo sou um corretor imobiliário: a localização é tudo». Para uma «reconstrução belíssima» que renderá um butim exorbitante, mas também para ordenar o futuro de uma região da qual os Estados Unidos não pretendem abrir mão.

A «localização» ofusca tudo: esconde Israel (nunca citado, exceto por Witkoff, mas apenas para agradecer a Netanyahu) e sobretudo esconde os crimes cometidos. É como se tivesse passado um furacão, um acaso da vida, uma coincidência infeliz: se não há crime, não há culpado e não há punição.

É tão ausente que Netanyahu – procurado pelo Tribunal Penal – entrará a fazer parte do Board of Peace, na última ofensa ao povo que massacrou e jamais chamou pelo nome. O primeiro a dizer a palavra proibida, «palestinos», é Ali Shaath, o ex-ministro da Autoridade de Ramallah à frente do governo técnico palestino.

Ele não está em Davos, manda um vídeo constrangedor no qual projeta um futuro de bem-estar graças à liderança trumpiana, um bem-estar que não prevê a solução política, ou seja, o fim da ocupação israelense.

AFINAL, como diz Kushner, a paz é outra coisa: é lucro, é lógica de mercado, são investimentos já na linha de partida (daqui a algumas semanas em Washington a primeira conferência das companhias interessadas). Não é justiça nem democracia. Basta ver quem põe a assinatura: o argentino Javier Milei e o húngaro Viktor Orbán são os rostos mais reconhecíveis, mas não os únicos, há entre outros Bahrein, Bielorrússia, Egito, Cazaquistão, Kosovo, Paquistão, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados.

O conselho mais bonito do mundo, chama Trump, com 59 países na fila para entrar, mas ele já sabe que é um meio fracasso: não morderam a isca os «grandes», os ocidentais, aqueles de que ele realmente precisa.

A Itália da «sua» Meloni se retirou por «incompatibilidade» do BoP com a Constituição (o que já diz tudo). E se retiraram França e Grã-Bretanha (a primeira porque o BoP viola a Carta da ONU, a segunda porque se sente perturbada pelo convite à Rússia), não sem uma boa dose de odiosa hipocrisia e, nisso, é difícil não dar razão a Trump: são os dois pesos pesados que em novembro aprovaram no Conselho de Segurança o plano em 20 pontos.

Gaza é uma desculpa, uma peça sacrificável de xadrez em uma partida global. Peão também é a ONU, ridicularizada e pisoteada e depois feita voltar pela janela: Washington projeta «colaboração», fórmula que serve para não assustar, mas que é desmascarada pelo estatuto do BoP, de fato uma organização supranacional com um único chefe e plenos poderes coloniais sobre terras alheias (firmar contratos, adquirir e dispor de bens imóveis e móveis, iniciar processos legais, receber e distribuir fundos privados e públicos).

A NARRATIVA distorcida de uma Gaza em ruínas por acaso – tratada como um mero pedaço de terra e não como uma comunidade humilhada onde as pessoas são mortas e famintas – se conclui com a mentira sobre seu presente: Trump alardeia condições de vida decididamente melhores, estômagos cheios e caminhões entrando como um rio em cheia.

A realidade é outra: as ajudas são totalmente insuficientes, os abrigos não existem (ontem outra criança morta de frio), os franco-atiradores e os drones matam (quatro vítimas durante o show de Davos), a passagem de Rafah ainda está fechada. Shaath anunciou sua reabertura na próxima semana, de entrada e saída, mas de Tel Aviv não chegam confirmações.

O governo israelense está discutindo isso. Este é o ponto de queda: nada se moverá sem o aval de Israel, porque é a potência ocupante e sua natureza não é arranhada por nenhum dos vinte pontos.

A ocupação colonial sai fortalecida, sustentada pelo Board modelo de opressão global. Tanto que a Palestina não foi convidada por ninguém: Israel colocou veto.

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